Saturday, January 14, 2012

Perdi O Meu Amor No Vento

-Estava agora a passar dedo por folhas passadas e a pensar como tudo muda. Tantas caras, tanta vida, tantas promessas. É inevitável olhar para trás por muito que diga que não o deva fazer a mim e aos outros. As minhas próprias feições são espelho dessa emoção... se calhar é indicativo de solidão falar comigo mesmo, na esperança de me responderes. Idiota, também... é uma esperança e a esperança tem sempre uma sustentação na fé. Fé... talvez por isso me pareça idiota. Olho para caras do passado na esperança que elas me digam algo, algo que só tu poderias dizer. Gostava de estar nos teus pensamentos, de te ouvir...será...será que me ouves...?

-Se a solidão podesse tocar sons em cordas de seda, eu ouvir-me-ia tocar melodias que são mais antigas que o tempo. Sento-me aqui a olhar para o infinito da minha imagem no espelho e penso porquê que ainda perco tempo a olhar para as encruzilhadas cheias de pó do meu passado, onde só eu sei os trilhos dos meus passos. E penso em ti, inevitávelmente, uma e outra vez, quando os meus pés descalços percorrem o pó. Quero gritar para que me oiças, pois vejo a tua imagem claramente. Mas estás surdo, estás no meu passado... e não quero olhar para o meu futuro. Falo-te. Ainda. Qual seria a tua resposta...?

-- A música começa a soar -

-Por vezes julgo que estás presente, por cima do meu ombro, a observar-me, a sorrir... o teu sorriso, belo, maior que a vida e misterioso como o tempo. Mas sincero. Há pequenos sinais, avisos, pressentimentos. Pequenas coisas que me fazem despertar para ti mais uma vez. Depois de tudo o que disse e fiz, depois do que fizeste... e mesmo assim não abandonas o meu pensamento, o meu espirito, tal como abandonaste a minha vida. Ou fui eu que te abandonei...? O tempo tem esse dom de tornar tudo cheio de névoas.. mas certas coisas continuam claras como cristal. Esta música... de uma maneira romântica (aquilo que sempre detestámos) era a nossa música e porque é que a estou a ouvir agora...? É a tua resposta? A maneira de o destino, Deus, alguém ou algo superior a nós que diz que eu não te devo esquecer.. ou que tu não me esqueceste. Deus, como eu daria tudo para ouvir a tua voz agora...

-Os sorrisos que me deste sempre me falaram mais do que as poucas palavras com que me brindaste. Os teus olhos falavam a língua dos amantes enquanto as tuas mãos eram os instrumentos dos teus quereres. Nunca foste de palavras vãs, como tantos outros que se cruzaram comigo. E ainda agora, ainda neste mundo cinzento, recordo com clareza aquele ultimo sorriso antes de virarmos a face para caminhos diferentes. Deixamo-nos perder na ilusão do tempo, na esperança vã que poderíamos esquecer. Eu não esqueci, não esqueço, é-me impossível apagar a tua imagem gravada a lagrimas e sorrisos nas minhas pálpebras cansadas. Quero ir-me embora e não consigo. Presa nas linhas de tinta permanente do teu sorriso esborratado pelo tempo. Será que me podes sorrir outra vez? Queria tanto ver esse sorriso... Aquele sorriso secreto que só eu conheço.

-Uma brisa acaricia-me as costas e arrepia-me como se estivesses presente...e estás...Olha para mim...só tu para me fazeres sorrir e chorar ao mesmo tempo. As folhas começam a cair mais uma vez e o frio começa a fazer-se sentir, mas apenas tu continuas a aquecer um coração frio da tua ausência. Ausência reforçada por caminhos diferentes.Pudemos nós divergir tanto? Poderá um ser estar tão dividido que se torna dois... dois seres incompletos? A tua memória é doce e amarga simultaneamente, mase eu sei que continuas comigo, eu sinto-te. Podes estar no mais distante dos planetas que eu sinto-te como se tivesses ao meu lado. E estás... Apenas estou cego, cego pela vida, pelo caminho, por tudo aquilo que nos separou. Mas eu quero ver... ver-te, tocar-te, cheirar-te. Quero desafiar o mundo, o destino, todos os resultados improváveis de estarmos juntos novamente. Todo o orgulho, toda a dor. Queria falar-te com os meus olhos tristes, aqueles que disseste que eram sempre sinceros mesmo quando não o queria ser.  Sei que te foste embora, que estás longe...mas porque é que eu continuo a sentir-te?

Porquê?

Diálogo por F.Ferreira e A.Filipa Nunes



Monday, January 02, 2012

Coração Perdido

Estrada não termina
Infindável caminho, jornada infinita
Deserto à minha esquerda,
Desolação à minha direita.

O Guia diz para não olhar para trás, apenas para o horizonte
Apenas até onde os olhos alcançam
Apenas até onde a luz permite

Um borrão.
Acelero para tentar chegar mais depressa,
Tudo se torna um borrão
E eu sinto que estou repetidamente a fazer o mesmo caminho

Como posso eu passar constantemente pelo mesmo sítio se não faço nenhuma curva?

As pessoas que encontro,
As terras que visito,
As memórias que me surgem,

São sempre as mesmas.

Quero parar, mas não me permitem
Quero voltar para trás e tentar outro caminho mas não consigo.
Quero cair, entregar-me ao cansaço
Quero parar, apenas para respirar

Afastar-me da estrada
Sonhos esmagados do lado esquerdo,
Memórias assassinas do lado direito,

Só me quero afastar.
Que os pés deixem de tocar o chão
Afastar-me do meu corpo
Deixá-lo para trás

Deixar os sentimentos para trás
Deixar as pessoas para trás
Deixar-te

Esfrego os olhos,
Continuo a caminhar na estrada,
À espera de chegar ao Destino
À espera de chegar ao Sentido

E todas as questões nunca colocadas
E todos os dias vividos
E todos os sonhos quebrados

No final… apenas tenho que me encontrar a mim próprio.

Sunday, October 09, 2011

O Silêncio

A busca pela Palavra perfeita
É como a busca pelo Graal
Reviram-se todos os cantos da Terra
Numa interminável colheita
Condenada ao fracasso total

Perde-se a fé, perde-se a razão
“Porquê?!” grita o Silêncio no chão caído
“Porque estou eu condenado a esta solidão?”
Pois ele ama a palavra, a palavra que lhe dá sentido

O Silêncio é vazio, o Silêncio é nada
Pois ele só vê na Palavra a perfeição
Que nele julga não existir

A Palavra é sentido, a Palavra é significado
Pois ela transmite conhecimento
Que o Vazio quer receber

Os dois estão condenados a coexistir
Sempre em conjunto
O maior desejo do Silêncio é ser interrompido
Pelo sentido da Palavra

Tal como dia e noite,
Tal como o bem e o mal
Tal como a vida e a morte,
Tal como o Azar e a sorte

Quando o Silêncio encontra a Palavra
Cala-se maravilhado
Querendo ouvir o que ela diz
A Palavra sente vergonha
Não encontrando palavras para soltar
O Silêncio pede-lhe que fale
A Palavra nada diz

O Silêncio torna-se a Palavra e a Palavra torna-se o Silêncio
Trocando de lugares, mantém a distância
A distância de um amor impossível

E o Silêncio aguarda que a Palavra venha até si
Continua a perseguí-la até à eternidade
Num ciclo sem fim
Pois ele não consegue evitar
De correr até si

“Um dia… Um dia…
Um dia saberás o porquê de eu te amar
O porquê de tu seres a Palavra
E de eu ser o Silêncio”

Monday, June 06, 2011

Fénix

Fogo interior escondido
Lume brando até à extinção
"Que mais pode haver?"
"Algo falta dentro de mim"
"Alguém..."

O fogo interior é paixão
O fogo interior é impulsão
"Os céus são o meu caminho"
"Quero voar, é o meu destino"
"Voar, em liberdade."

Quando se julga se é livre,
O mundo colapsa e prova o contrário
Não há verdadeira liberdade
na ilusão da conformidade

O fogo interior revolta-se
Consume-se fora do controlo
Carne e ossos sucumbem à dor
Ao seu poder incinerador
Queima até não restar mais nada
Nada mais que cinzas

Apenas cinzas

Imovíveis cinzas
O fim e início
Do verdadeiro caminho
Necessário para o renascimento

As cinzas rasgadas por Asas de Fogo
A metamorfose ansiada
Para seguir o seu caminho
Os céus são o destino

Não há nada que o impeça
Os olhos vêem novamente pela primeira vez
O vazio foi preenchido
Aquela que faltava dentro de si
Renasceu

Voar... livre

Sunday, March 13, 2011

Momento Definidor

A vida tirou-te pessoas importantes
Tirou-te coisas que julgaste importantes
Fez-te chorar
Fez-te gritar
Cegou-te facilmente
Seguiste o que julgaste correcto
Seguiste o teu ego
Em direcção à dor e ao esquecimento
A dor, no entanto, ficou sempre presente
E o esquecimento não é mais que uma mera ilusão
Que sugou tudo o que tinhas
Até um momento definidor surgir
Deixaste acumular tudo em cima de ti
Escondeste-te de tudo e de todos
Isolaste-te do mundo
Até não sobrar nada nem ninguém
Nem mesmo tu.

Apenas uma coisa ficou
Uma pergunta

Sim ou não?

Não há mais nenhum sítio por onde fugir
Para onde fugir

Sim ou não?

O que é que vais dizer?

O que é que vais escolher?

Sim ou não?

Responde à pergunta
Ela está à tua espera desde que nasceste

Sim ou não?

Não digas que não sabes
Não peças a resposta a mais ninguém

Sim ou não?

Ninguém pode viver por ti
O caminho é teu, tu escolhes se continuas ou páras

Sim ou não? Agora. Sim ou não?

Sim.

Wednesday, December 22, 2010

Momento

Por momentos, consegui agarrar-te. Iludir-me que serias minha para sempre e contigo trocar juras de amor.
Por momentos, pensei que seria verdade. Fechei os olhos para não ver que era mentira.

Por momentos, reencontrei-te. Diversos momentos, breves momentos.
Vejo-te todos dias, quando fecho os olhos. Tento desviar a minha atenção, porque não sei o que seria de mim se te visse por mais que um singelo momento.

Renego o mundo porque ele não é por mim, embora saiba que a sua maior arma és tu.
Procuro momentos de lucidez fechado em mim mesmo, não sabendo se o que procuro sou eu ou se apenas fujo de ti.

Por muito que fuja, nunca irei conseguir correr para longe do teu alcance, porque caminhas sempre comigo, como a cruz a meu peito que carrego por uma promessa feita.
Como tu, serei eu uma promessa de um milagre por acontecer?

Tens diversas caras, diversas vozes, diversos sorrisos, diversos toques.
Por momentos, sinto-te...

...mas a realidade encarrega-se de me mostrar sempre que nunca és tu. Nunca irás ser tu. Porque o meu momento vem sempre um momento tarde demais.

Tuesday, November 09, 2010

Esperança de Vida

Para mim a esperança de vida não é o cálculo que dita até que idade vou viver.

               Esperança de vida é o espaço de tempo, que vai diminuindo progressivamente, entre o dia em que eu me irei afastar por completo de tudo o que me rodeia e o dia em que eu vou conhecer, finalmente e verdadeiramente, o Amor.

Ainda não descobri qual dos dois vai chegar primeiro, mas tenho esperança.

De Vida.